Relato de parto – Alessandra – nascimento da Gabriela

Por Alessandra |

CAMINHANDO PARA O PARTO NATURAL

Lá estava eu, dentro da sala de parto. As contrações já estavam fortes e, assim que cheguei na maternidade, fui imediatamente direcionada para ela.
Olhava para os lados e procurava pelo Rodrigo. Não o encontrei, ele ainda estava na recepção fazendo minha internação. Olhei novamente ao redor e, dessa vez, procurei por minha médica. Ela também não havia chegado ainda. Comigo estavam apenas o médico da maternidade e dois enfermeiros, totalmente desconhecidos.
Mas eu não poderia esperar mais. Meu corpo começou a agir sozinho. Senti uma força muito grande, eram os puxos que ele fazia a cada contração para meu bebê nascer. Eu só tinha que me deixar levar e fazer aquilo que meus hormônios me conduziam a fazer. Já estava no período expulsivo. Quando, de repente, acordei.

Era apenas um sonho. Mas um sonho empoderador. As dores, as contrações, tudo foi muito real. Antes de engravidar havia lido um relato de parto natural e me apaixonado pela ideia. Mas o fato é que com o início da gravidez me empolguei com todo o mundo novo que eu estava vivendo e acabei deixando a questão do parto um pouco de lado. Até porque eu estava fazendo o pré-natal com a médica que eu gostava. Ela era muito querida e eu sentia que poderia confiar totalmente em suas decisões. Mas aquele sonho me despertou para uma questão: eu poderia ter um parto normal, exatamente como tem que ser. Contra todas as estatísticas e histórias de amigas que desejaram um parto normal e acabaram em cesárea, eu sabia que conseguiria parir minha filha.

Eu já deveria estar no 4º mês de gestação. E quis deixar bem claro para minha obstetra minha intenção de ter um parto normal. Ela disse que também preferia assim e que, no momento, não havia nada que me impedisse de tê-lo. Contou sobre próprio seu parto. Normal e cheio de intervenções (todas aquelas que nos assustam!), e afirmou: “Te darei anestesia, afinal de contas, sou sua amiga.” Sai da consulta confiante.

Toda a vez que me perguntavam: “Você quer fazer cesárea ou parto normal?” Eu respondia cheia de entusiasmo: “Parto normal”. Mas, invariavelmente, aparecia alguém para dizer: “Mas tem que esperar para saber se vai dar. Não é assim não.”

Em um belo dia, ouvi a funcionária da lanchonete da empresa, também grávida, ouvindo uma editora contar sobre sua experiência com o parto natural. Ela percebeu meu interesse convidou-me para sentar com ela. Durante todo o café ela descreveu como havia sido o nascimento do seu filho. A cada palavra eu me emocionava mais e lágrimas brotavam em meus olhos. Ao me perguntar se minha médica fazia parto natural, eu respondi que sim. Mas ela se colocou à disposição para dar o contato de sua médica, pois sabia que a minha obstetra não era nenhum dos conhecidos médicos humanizados que prezam pelo parto natural. Também falou da lista materna e disse que eu deveria ler mais sobre o assunto.

Desejei, com todo o meu coração, ter um parto natural. Sem intervenções. Humanizado para mim, meu marido e minha bebê. Passei horas na internet lendo sobre o assunto. Os relatos de parto me faziam chorar, eu também queria aquela avalanche de emoções na história da minha família. Fiz minha inscrição na lista Materna e perguntei para a Ana Cris, moderadora do grupo e obstetriz, se ela conhecia a minha atual obstetra. Ela foi clara: 80% de cesáreas.

Conversei com o Rodrigo e mostrei minha insegurança. Disse que na próxima consulta falaria de qualquer jeito sobre o parto. A médica costumava me enrolar quando eu tocava no assunto dizendo que ainda era cedo. Mas agora, com 32 semanas de gestação, ela teria que mudar o discurso.

Percebi que a obstetra não havia ficado feliz com a quantidade de perguntas que eu fazia sobre o parto: “Você andou lendo, né?” Perguntou ela. Logo vi que ela não queria que eu soubesse detalhes do parto. Para ela, aquilo era assunto apenas dela. Então insisti no assunto:
Eu – “Doutora, você faz episiotomia de rotina?”
Médica – “Mas é claro.”
Eu – “E se eu não quiser? Li que pode trazer consequências ruins.”
Médica – “Você vai querer . As estatísticas provam que, se não for feita, sua chance de sofrer mais tarde de ´bexiga caída` será muito grande.”
Eu – “E tricotomia? Eu não gostaria.”
Médica – “Sempre fazemos na maternidade.”
Eu – “E faz uso rotineiro de ocitocina intravenosa? Sei que ela gera contrações doloridíssimas e compromete a saúde do bebê.”
Médica – “Com certeza darei, preciso te ajudar a ter contrações eficientes. Aliás espero, no máximo, 6 horas. Se não dilatar tudo, vamos para a sala de cirurgia.”
Eu – “Mas nós vamos esperar eu entrar em trabalho de parto naturalmente, certo?”
Médico – “Não deixo passar de 40 semanas. Se não entrar em TP até lá, posso até tentar induzir.”
Eu – “Posso andar durante o trabalho de parto?”
Médica – “Pode ficar na bola, um pouco na banheira. Mas terá que ir para a cama para ficar na posição do parto na hora de nascer.”
Eu – “Bom, eu posso, pelo menos, optar por não tomar anestesia?”
Médica – “Não, não vou deixá-la passar por isso sem uma.”
Eu – “E a senhora faz aquela limpeza chata do intestino?”
Médica – “Não, isso eu não faço não.”
Eu – “Ufa, pelo menos isso né, doutora? Também estou pensando em levar um pediatra neonatal para ter os primeiros cuidados com o bebê sem as intervenções desnecessárias protocolares de hospital.”
Médica – “Melhor não. Melhor usar o da maternidade para não termos confusão de equipes.”

Depois de todas essas respostas fiquei completamente confusa. Aquela médica querida já não correspondia às minhas expectativas para o parto. Creio que eu também não me encaixava mais no perfil de paciente que ela costumava atender. Eu fiz perguntas demais. Ela sentiu a tensão. Nosso relacionamento médico-paciente parecia ter sido abalado. Eu já não era tão paciente assim. Decidi, então, ligar para médica da minha colega e agendar uma consulta.

A sala de atendimento já era diferente por si só. Cama baixinha, banquinho do lado, nada de lugar para pendurar as pernas. A médica, bastante jovem, nos tratou com respeito e simpatia. Ok, isso a outra médica também fazia. Mas a Dra. Andréa, tinha mais do que isso, ela sabia ouvir e não tinha respostas prontas para tudo. Muito do que eu perguntava, cabia a mim decidir depois de todas as alternativas e explicações apresentadas. Fui invadida por uma paz deliciosa, a certeza de que estava no lugar certo e de que, apesar de já estar no terceiro trimestre, ainda dava tempo de conquistar um PN. Até a hora que ela me passou os valores da equipe médica. Confesso que fiquei assustada por ter que pagar tudo, mas era um assunto a discutir com o Rodrigo.

Essa é uma grande questão no meio do parto humanizado. Mas não tem jeito. Se você ficar com seu médico do convênio ele vai te levar para uma cesárea por um motivo qualquer, já que o valor que ele receberá será pouco para te acompanhar tranquilamente durante todo o seu trabalho de parto. Algumas mulheres que realmente não têm condições de pagar procuram as Casas de Parto, outras contratam uma doula para aguentar o TP em casa e ir para a maternidade com médico plantonista já no expulsivo… Mas você também pode bater um papo com a equipe, seja ela para o parto hospitalar ou domiciliar, e verificar possibilidades de pagamento parcelado. Mas já vi muita mulher fazer enxoval em Miami e reclamar do valor do médico humanizado particular. É tudo questão de prioridade, dar uma economizada de um lado para consegui algo que lhe é mais precioso.

Conversamos, ponderamos e fiquei feliz demais por optarmos por trocar de GO. Não, não tínhamos aquele dinheiro. Precisaríamos abrir mão de algumas coisas, economizar em outras, mas faríamos tudo para trazer nossa Gabi ao um mundo de forma respeitosa.

Logo começaram os questionamentos familiares sobre a mudança de médico. Sobre os motivos, sobre a escolha do parto natural, sobre o porquê de se pagar por algo que você pode fazer pelo convênio.

E, então, comecei a minha busca por uma doula. Queria que ela fosse uma pessoa que me passasse tranquilidade e confiança já que era tudo novo para mim. E foi através da lista de discussão Materna que conheci a Camila. Ela é naturóloga, especializada em massagens. Nossa empatia foi instantânea!

LONGOS PRÓDROMOS

Comecei a ter contrações bem cedo. Acho que na 36º semana elas já vinham fortes de vez em quando. Tinha vezes em que eu agachava no trabalho para dar uma aliviada. O povo brincava e tinha medo do bebê nascer por ali mesmo. Eu me alegrava por saber que era apenas meu corpo dando sinais e se preparando. Agradecia a Deus por cada uma delas. Elas seriam o caminho para minha filha nascer, e como eu já havia sonhado com tudo isso!

As contrações também vinham pela noite. Algumas chegavam a me acordar de madrugada. Mas nada de mais. Conversava com minha menina e dizia o quanto eu estava feliz porque logo ela estaria em meus braços .

Com 39 semanas fui para a cama com várias fisgadas e choques no períneo. O Rô ficou empolgado e deu um beijo de boa noite em Bibi dizendo: “Filha, pode chegar, estamos te esperando”. Resolvi, então, tentar uma das posições que aprendi. Ajoelhei ao lado da cama, me apoiando nela e rebolei um pouquinho. A dor foi passando e enfim consegui deitar novamente. Mas fiquei acordada para ver se vinha outra. Pensei: “Será que chegou a hora? Se tiver outra em um intervalo pequeno vou acordar o Rô.” Mas não teve e cai no sono novamente.

Já com quase 40 semanas cheguei a acordar umas 10 vezes com contrações em uma noite. Elas não tinham um ritmo certo, mas também não me deixaram dormir direito. Pela manhã tive consulta com a Andrea. Ela disse que Bibi estava encaixada e minha barriga bastante baixa. Fez exame de toque, sentiu um dedo de dilatação e o colo do útero bem molinho. Ela também confirmou que os pedacinhos brancos que estavam saindo de mim eram o meu tampão. E me avisou que ele poderia começar a sair com um pouco de sangue. Andrea também me orientou a dormir e descansar durante o dia: “Você não tem dormido durante a noite e precisará de energia para passar pelo TP.” Mas eu estava tão empolgada com essas boas notícias que saía pela casa dançando: “Bibi vai chegar! Bibi vai chegar!”

No dia 16/08/09, completamos 40 semanas de gestação. Eu estava supertranquila, mas bastante cansada de ouvir perguntarem quando ela iria nascer. A resposta era certa: “Quando ela estiver pronta.” Mas confesso que, algumas vezes isso me irritava. Ouvi todos os absurdos possíveis. Homens falando de com o a mulher poderia ficar mutilada por conta do parto vaginal – a velha falácia machista de acabar com o “parque de diversões do marido”. Mulheres que se defendiam (como se eu estivesse insultando alguém por buscar um parto natural) com os argumentos para suas cesáreas e possíveis complicações do PN que tinham ouvido a prima do marido da vizinha da vó da cunhada falar . Outros que falavam sobre o quanto “aparecida” eu queria ser por escolher algo tão diferente (como assim? Não foi Deus que nos fez para parir naturalmente? Diferente eu? Não foi sempre assim?). Alguns duvidavam do meu bom senso e questionavam a todo momento sobre a saúde da minha princesa. Como se optar por deixar a natureza agir fosse mais perigoso do que passar por uma cirurgia como a cesariana. Oi? Sério mesmo que pensam assim?

Neste mesmo período, a Dra Andréa me deu um tempo de licença. Apesar de nossa saúde estar ótima (tirando uma dor bem chata no ciático), pelas ultrassonografias, Gabi estava um pouco menor do que o normal para a idade gestacional. Ela nos tranquilizou, poderia ser um erro do ultrassom, poderia ser um erro de DPP ou até mesmo, simplesmente, o fato da Gabriela ser menorzinha (o que se confirmou com seu nascimento e desenvolvimento posterior, até porque eu e o Rô não somos grandes, né?). Mas ter um tempo de descanso seria muito bom.

O Rô tinha duas semanas de folga pendentes e iria tirá-las quando a Gabriela nascesse. Mas ele já estava ansioso demais e decidiu sair antes para ficar comigo nesses momentos que antecederam a chegada da Gabi.

Na nossa consulta da 40ª semana as notícias eram animadoras: colo do útero molinho, Gabi encaixadíssima e 4 centímetros de dilatação! Uhuuuuuu! Comemorei muito: se o bebê nasce com 10 centímetros de dilatação já estávamos quase na metade do caminho, que delícia aquela sensação! Como tudo estava progredindo, a Dra Andrea aproveitou para fazer uma massagem no colo do útero com óleo de prímula para ajudar no processo. Trata-se de um descolamento de membranas que foi feito com meu consentimento. E isso doeu um bocado. O Rô segurou a minha mão e eu suava frio… E o mais legal: eu estava sorrindo! Eu já havia ouvido falar nisso, e a Dra Andrea reforçou: “A boca tem uma ligação com o canal de parto. Durante a dor não deixe os lábios travados. Sorria ou abra a boca.” Resolvi sorrir… comédia pura!

A expectativa era que Gabriela nascesse até o final daquela semana. Eu sentia o meu corpo bastante diferente naqueles dias e me lembrava de cada relato de parto natural que havia lido nos últimos meses. Mexia demais comigo pensar que estava passando pelos mesmos passos que todas aquelas mulheres haviam passado. Sempre chorei ao ler estes relatos, agora, chorava de emoção ao pensar no meu parto. Sentia Deus no controle cuidando de cada detalhe, preparando todas as coisas. Não tinha medo nenhum, não me sentia nervosa. Tinho a paz que excede todo o entendimento preenchendo o meu coração (Filipenses 4:7).

Completamos 41 semanas e, na consulta com a Dra Andrea, repetimos a massagem no colo do útero. Ela me orientou a procurar uma acupunturista, pois ela poderia me ajudar a entrar em TP. Fiz 2 ou 3 sessões com ela e tomei um chá horrível demais que ela me receitou. Minha querida doula Camila também foi em casa, fez acupuntura e me deu dois florais para eu tomar.

Por termos passado de 40 semanas, comecei a fazer ultrassonografias com mais frequência. Também cheguei a fazer umas duas cardiotocos. A cada novo exame passava por um grande estresse. Médicos questionando o fato de ainda não ter feito uma cesárea, perguntas sem sentido, olhares indiscretos. As enfermeiras da clínica se apavoravam ao saberem da minha idade gestacional. Importante lembrar que as gestações podem durar 42 semanas. Durante um cardiotoco fui rude com uma delas, mas ela insistia no fato de que a Gabriela não mexia o suficiente e ameaçou buzinar em minha barriga. Discuti, disse que não queria. Ela refez o exame e voltou na sala dizendo que teria mesmo que buzinar a Gabriela. Eu bati o pé. E, no final, o Rô me pediu para que eu a deixasse fazer aquilo para que ele ficasse mais tranquilo. Ela buzinou, imediatamente lágrimas rolaram do meu rosto, minha bebê se mexeu, provavelmente foi acordada no susto e eu pedi perdão a ela por tê-la feito passar por isso.

A essa altura as cobranças e pressões familiares se tornaram mais pesadas. Eu dizia que aqueles questionamentos não me faziam bem e que eu sabia exatamente o que estava fazendo. As brincadeirinhas sobre o parto já me irritavam e eu me protegia nos braços do Rodrigo.

Às vésperas de completarmos 42 semanas voltamos na Dra Andrea. Ela nos tranquilizou e nos deixou muito à vontade. Poderíamos esperar mais alguns dias (os sinais vitais da Gabi estavam perfeitos, líquido amniótico ótimo, placenta nota 10) ou então irmos para a maternidade e começar a tomar uma quantidade mínima de ocitocina para o trabalho de parto engrenar. Eu queria esperar, mas foi então que o Rodrigo desabafou. Ele queria continuar a me acompanhar nas minhas escolhas, mas estava angustiado e disse que não aguentava mais esperar. Ele sempre ouviu que foi salvo pelo médico em uma cesariana porque ele não nascia nunca e creio que isso continuava a assustá-lo. Então fizemos um acordo, se eu não entrasse em TP até sexta-feira, iríamos para a maternidade. Era quarta-feira e achei razoável.

Hoje vejo como esses medos de nossas próprias histórias de nascimento voltam, de alguma forma, quando vamos parir nossos filhos. O Rodrigo com a história da cesariana salvadora com 42 semanas. Eu com tudo o que ouvi da minha mãe sobre não ter tido dilatação, não ter entrado em TP e isso ser comum nas mulheres da nossa família.

O PARTO

Sexta-feira, 28 de agosto de 2009. O TP ativo não havia começado. O dia amanheceu ensolarado e feliz. Eu sabia que em poucas horas iria conhecer o rosto daquela que iria mudar a minha vida, revolucionar minha história. A Camila, nossa doula, veio nos encontrar em casa e trouxe algumas recomendações valiosas para quando chegássemos na maternidade.

Não, eu não estava em trabalho de parto ativo, mas as contrações eram fortes (como há muitos dias) e os funcionários já ficaram de olho em mim. Enquanto o Rô abria a ficha, eu e a Camila fomos para a sala de triagem. Eu tinha uma cartinha da Dra Andrea e a enfermeira logo a reconheceu pelo nome: “É aquela médica que faz parto natural, sem anestesia, né?” O exame de toque confirmou 6 centímetros de dilatação. Comemorei com a Camila, já havia passado da metade do caminho!!!

Entrei naquela sala de parto natural e me senti abençoada. Eu havia sonhado em parir ali, e lá estava eu no meu grande dia. A Dra Andrea logo chegou e veio me ver. Ela estava tão tranquila e em paz – como sempre é – que fiquei ainda mais serena.

Caminhei pelo quarto para ajudar as contrações a engrenarem, queria fazer de tudo para não ter que tomar nem um pouco de ocitocina. O Rô fotografava e filmava tudo. A Andrea iniciou a administração do hormônio ocitocina. Mas garantiu que era a dose mínima e que, assim que as contrações se tornassem ritmadas, fecharia o acesso. Ela me orientou a comer o almoço que a maternidade havia providenciado para ter energia durante o TP.

Olhei para a porta e vi minha irmã, Adriana, entrar. Fiquei feliz, queria muito tê-la ao meu lado naquele momento. Nessa hora também estava no quarto a obstetriz que nos auxiliaria no parto. Uma querida, diga-se de passagem.

Enquanto minha doula saiu para comer alguma coisa, fui examinada pela Andrea. Ela me deu a opção de estourar a bolsa para vermos como estava o líquido já que eu estava com 42 semanas. Eu ainda não sentia contrações muito dolorosas e aceitei. Mas fiquei preocupada com a cara que ela e a auxiliar fizeram. Havia pouco líquido. Fui tranquilizada novamente quando me disseram que a bolsa poderia ter estourado no banho, sem eu perceber, ou o líquido poderia ter começado a sair aos poucos nos últimos dias. Mas o líquido estava limpinho e estava tudo muito bem.

A partir daí comecei a sentir contrações ritmadas e agora mais doloridas. Minha doula voltou e me aconselhou a ir para a bola debaixo do chuveiro. Fiquei lá rebolando sobre a bola, com uma toquinha ridícula no cabelo para não molhar demais e eu não sentir frio. A água quente nas minhas costas ajudou muito a lidar a com a dor.

Mas em algum momento a dor se intensificou e falei para a Camila que estava ficando difícil suportar. Ligaram então a água da banheira para eu entrar. Lembro de, ao atravessar o banheiro, ver a minha médica escrevendo bastante calma no computador dela, meu marido super relaxado teclando no dele e eu ali sentindo aquelas fortes contrações, foi bem estranho. Parecia um mundo paralelo.

Deitei na banheira quentinha e encontrei o meu lugar. Lá recebia massagem da doula e podia olhar tudo a minha volta. Minha irmã estava lá, conversando comigo entre as contrações. Elas, aliás, estavam cada vez mais fortes e com intervalos menores. Eu não controlava esses tempos, mas sabia que o trabalho de parto estava avançando. Fiquei de joelhos e rebolei durante as contrações. Nos intervalos voltava a deitar e relaxar. Meu marido tentou fazer massagem nos meus ombros, mas aquilo mais incomodava do que ajudava. Coitado, só queria ser útil. Eu não o deixava fazer massagem, mas também não o deixava sair de perto de mim.

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Mudei de lado na banheira, a essa altura as contrações estavam fortíssimas. Lembro de um exame de toque e 7 centímetros de dilatação. Não gostei de ouvir aquilo, tinha avançado apenas 1 cm desde minha chegada à maternidade. A dor que senti durante o toque também foi horrível. Aninhei-me de tal forma que não queria sair daquela posição para nada. Era eu, Gabi e o ninho.

Apenas balançava meu quadril para um lado e para o outro durante as contrações. Segurava a mão da Camila e não a deixava sair de lá para nada. Ela me passava uma segurança muito grande, segurar em sua mão era como se eu tivesse uma força extra para passar por tudo aquilo. Ela falava baixinho coisas que me ajudavam a lembrar porque eu estava ali e o que eu deveria fazer. Inspiração para mais tarde eu desejar ser doula e também auxiliar outras mulheres com amor.

Nossos CDs de músicas que preparei para o parto tocaram durante todo o TP e também me ajudavam a tentar relaxar. Senti enjôo e me arrependi de ter almoçado. Era como se toda aquela comida estivesse me atrapalhando. Continuei ali, deitada, rebolando e apertando a mão da minha doula.

Já era de tarde, não tenho ideia da hora, mas as contrações se tornaram insuportáveis. Para mim não havia intervalo entre elas. Disse isso para a Andrea e ela falou que era impressão minha. Fiquei brava, como é que eu poderia não saber do que estava falando? Eu estava sentindo, eu sabia o que estava falando. Falei para a Camila que queria descansar entre as contrações e não conseguia porque era uma atrás da outra, estava me sentindo fraca. Uma contração acabava, eu achava que ia relaxar e já vinha outra. Eu fazia biquinho e dizia que não queria sentir assim, tão rápido outra. Brincavam comigo, falavam do meu biquinho, eu não entendia a graça. Pedi para a médica fechar a ocitocina e ela disse que já havia feito isso quando o TP começou a engrenar.

Ofereceram-me chocolate e suco de uva que eu havia reservado para o parto. Eu estava enjoada e não queria nada daquilo. Não precisava de energia, precisava de fé. Fé para acreditar que conseguiria passar por tudo aquilo porque, naquele momento, parecia que eu não teria força suficiente. Tomei água de canudinho, pois não conseguia levantar meu pescoço da banheira. Estava encaixada lá e não conseguia me mexer. Assim como Gabi estava encaixada para nascer, também fiquei encaixada para o meu renascimento.

O Rô tentou fazer massagem nos meus pés. Mas eu não quis, tinha uma aflição, sei lá, não queria que ele me tocasse naquele momento. Tive dó dele, mas não conseguia falar direito, só pedia desculpas. Ele ficou lá na beirada da banheira me olhando, eu podia sentir o seu amor e isso me dava tanta força. Minha irmã também estava por lá. Quando me perguntavam algo durante a contração eu ignorava, não tinha condições sequer de entender a pergunta.

Aquela sensação ficou intensa demais, contração atrás de contração. Lembrei-me de abrir a boca durante elas e fazia um “aaaaaaaa” bem alto. Fiquei com medo de me escutarem nos corredores. Depois desencanei e verbalizei a dor sem pudores. Era o meu parto. Era um “aaaaaa” com certa sinfonia. Achei engraçado. Como assim engraçado? Devia estar pirando. Como poderia achar graça no meio daquela dor.

A Camila me perguntou minha data de nascimento. O que???? Como assim? Pergunta para o Rodrigo, eu disse. Ela falou que só queria ter certeza de que eu estava na partolândia. Achei graça disso também e percebi que estava na fase de transição, precisava dilatar os últimos centímetros. Comemorei a partolândia. Fiquei feliz por entender o que estava acontecendo comigo. Naquele mar de sentimentos intensos pude me localizar. Mas aí percebi que as contrações não estavam tão mais próximas, apesar da dor ainda forte. Doía demais minha lombar e tinha certeza de que minha pelve ia rachar ao meio. Eu e o Rô começamos a orar em línguas. Orávamos alto. Talvez algumas pessoas não entendessem aquilo, mas estávamos chamando a presença do nosso Deus. Ele orou comigo e me ungiu com óleo santo. Foi o nosso momento, o nosso sagrado.

Em um momento de loucura, chamei o Rodrigo e pedi para que ele ignorasse o plano de parto e chamasse o anestesista. Ele e a Camila me falaram dos riscos de tomar anestesia, sobre as chances do TP parar, de não ser legal para a Gabi. Mas eu estava enlouquecida e pedi para ele chamar e pronto, ele saiu para falar com a Dra. Andrea. Naquele momento me lembrei dos relatos de parto, quando as mulheres escreviam que pensavam: “Que ideia louca foi a minha de ter um parto natural, pára tudo agora”. Por um instante esqueci meu sonho, desejei a anestesia, ou até mesmo a cesárea. Perguntei desesperada para a Andrea quando tempo o anestesista levaria para chegar. Ela respondeu que seria 1 hora. Sai do prumo, disse que não aguentaria, precisavam chamar o anestesista do próprio hospital. Gritei que não daria tempo de esperar pelo outro. Ela sorriu (seu sorriso sempre tranquilizador) e perguntou: “Não vai dar tempo de quê, de ter o bebê? Mas isso não é um problema. Estamos aqui para isso.”

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Do que eu tinha medo? De morrer de dor? Recobrei a consciência e lembrei que não queria ser anestesiada. Chamei o Rodrigo e perguntei: “Se caso o anestesista chegar e eu não quiser tomar mais anestesia, posso me recusar, né?” Não, eu não queria a anestesia, mas tinha medo do desconhecido. Naquela loucura de pensamentos cheguei a calcular o quanto a mais iria me custar um anestesista. Sim, louca de pedra.

Comecei a sentir vontade de fazer força. Perguntei se poderia. A obstetra disse que sim, que deveria fazer o que meu corpo pedisse. Mais um exame de toque e 9 centímetros. “Como assim? Cadê os 10 que preciso?” – pensei.

Durante as contrações eu fazia força e isso me data um alívio muito grande. Cheguei a fazer umas bolinhas de cocô na água. Sim, mulheres podem fazer cocô durante o parto. Sem nojinhos, amore. Fiquei com vergonha, mas falaram que era normal. Minha irmã ia com uma peneira recolhendo tudo. Senti uma sensação muito boa por seguir meus instintos, por saber a hora de fazer força, por sentir meu corpo trabalhando. Falaram que eu precisava sair um pouco da banheira para trocar a água, que já estava fria. Eu não quis me mexer. Então a água foi sendo trocada aos poucos, comigo lá dentro mesmo.

Mais um exame de toque, 10 centímetros, foi doloroso, mas foi ótimo saber que já havia dilatação total. Senti a cabeça da Gabriela começar a passar pela pelve, foi um incômodo estranho e na minha mente veio um questionamento sem sentido: “E se ela não conseguir descer? E se ficar presa na minha pelve? E se ela arrebentar minha bacia?” Tive medo. Era um medo do desconhecido de não saber o que estava por vir. Mas eu precisava fazer força, era mais forte do que eu, meu corpo me dizia aquilo. Continuei a empurrar. Último exame de toque. A obstetriz me disse: “Ela está aqui e é cabeluda! Você não quer se tocar para senti-la?”

Coloquei o dedo dentro da vagina e senti a cabecinha dela, macia e com cabelos. Meu Deus, o que foi aquele sentimento? Comecei a chorar de emoção e rir de alegria. Que felicidade era poder tocar na minha princesa. Minha filha. Minha promessa.

Aquele contato com ela me deu um poder que eu não consigo explicar, mas consegui mandar todos os medos embora. Eu sabia que nós conseguiríamos passar por isso juntas e todas as minhas forças foram restauradas.

As contrações eram bastante espaçadas, mas quando vinham, eu fazia força. Lembro que nos intervalos era uma grande calmaria. Todos ao redor da banheira, a música tocando ao fundo, louvores ao meu Deus. A hora estava chegando. Em algum momento disseram que iriam chamar o pediatra. A luz estava baixa, o clima era ótimo. Agora eu me sentia segura e tranquila.

Mais algumas forças e a cabecinha dela começou a aparecer. Senti uma queimação, era o círculo de fogo. A Andrea lembrou-me que ela iria dar dois passinhos para frente e um para trás até sair totalmente. Pude vê-la através do espelho que colocaram na minha frente e mais uma vez toquei sua cabeça. Quanto amor pude sentir! Não sei quantas forças foram necessárias, quanto tempo durou o expulsivo, mais lembro de sua cabeça sair e, uma força depois, seu corpinho. Imediatamente a dor cessou. Ela veio para o meu colo. Eu disse que ela era muito bem vinda. Que era muito amada.

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O Rô estava ao nosso lado. Orou e cortou o cordão umbilical. A pediatra humanizada olhava e aguardava o nosso tempo. Sem intervenções. Mas Gabi precisou ser examinada e recebeu um pouquinho de oxigênio. O Rô a acompanhou em todo o tempo e logo a trouxe para mim. Depois me confessou que pensava que a experiência do parto seria especial para mim, mas que havia sido muito importante para ele também.

Antes ainda a médica me examinou e esperou a placenta que logo saiu. Não tive laceração que precisasse de pontos.

Lá mesmo, ainda na sala de parto eu a olhei e ela me olhou… Senti uma das sensações mais estranhas de toda a minha vida. Era como se eu conhecesse aquele olhar, inexplicável… e nós duas nos apaixonamos. Tentei amamentá-la, mas ela apenas cheirava e lambia meus seios.

Gabi nasceu à vésperas de completar 42 semana de gestação. Ao som de Agnus Dei. Não sofreu intervenções desnecessárias. Sem colírio irritativo, sem picadas, sem esfregação, sem sondas, com respeito. 47 centímetros e 2870 gramas. Ou seja, estava no tempo dela, e ela é sim mignon, como nós também o somos. Se tivesse sido arrancada do útero em uma cesárea eletiva antes de 40 semanas poderia ter ido parar na UTI. Daí a importância de respeitarmos o tempo da natureza.

Minutos após o parto, eu não me sentia cansada, sentia uma força absurda, uma energia sem fim. Eu queria rir, queria olhá-la, queria amar… Era muito amor em mim… Sentia-me viva. Renasci naquele parto. Eu pari por mim, por minhas avós, por minha mãe, por minha sogra, por minha irmã… E como eu queria dizer para todas as mulheres que elas também eram capazes e não deveriam ser roubadas por médicos cesaristas. Teve início um novo tempo em minha vida.

Escolhi ser Mãe | 2013
Por Alessandra Rebecchi Feitosa - Todos os direitos reservados
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