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04/12 2012

O louro, o educador e os peitos

Por Alessandra | 2 Comentários

Cena do reality show com mães e bebê do programa Mais Você: mães reclusas e infantilizadas

Cena do reality show com mães e bebês do programa Mais Você: mães reclusas e infantilizadas

O programa Mais Você da apresentadora Ana Maria Braga está com um quadro bizarro com H maiúsculo (piadinha esta do H por conta de um fora dado pela Ana Maria durante um de seus programas).

Nele, mães e crianças entre 1 e 2 anos participam de um reality show confinadas entre uma casa e um quarto de hotel. Sim, a exemplo de outros realities, elas competem entre si para ver quem permanecerá na casa para ganhar o prêmio em dinheiro e participar da campanha publicitária da marca de pomadas patrocinadora do show.

Triste demais ver crianças retiradas de suas casas, longe dos pais, sentindo todo o estresse que suas mãos estão passando por conta da competição. Nada saudável. Nada respeitoso. Exposição muito desagradável, aliás.

Mas o que levou os olhares direto para o quadro foi a participação constrangedora do educador Marcelo Bueno. De forma absurda e desrespeitosa ele disse às mães que estão na casa (e a todas as telespectadoras) que ainda amamentam seus filhos que devem realizar o desmame abrupto assim que seus filhos começam a andar. Com aquela velha história mentirosa de que a criança fica mais dependente da mãe e de que o leite não serve mais como alimento.

Além de ter sido bastante desagradável, o tal educador foi contra todas as recomendações da OMS, UNICEF e Ministério da Saúde. Todos eles incentivam a amamentação exclusiva até os 6 meses e prolongada até os 2 ANOS OU MAIS. Aliás, hoje já se sabe que o desmame nos humanos deveria ser entre os 2,5 e 7 anos de idade. E isso é uma média, claro, porque cada caso é um caso e deve ser respeitado.

Se formos falar de valores nutricionais, então, vemos o quanto o moço está completamente desinformado:
“As crianças que mamam no peito após um ano de idade, no mínimo duas vezes ao dia, conseguem garantir pelo menos 40% das necessidades nutricionais diárias. Além disso, as mães continuam garantindo uma ótima produção de anticorpos para defender essa criança de doenças.” esclarece Sônia Salviano, coordenadora da Política Nacional de Aleitamento Materno do Ministério da Saúde. Escrevi uma reportagem muito bem repercutida para o Bebe.com onde falo sobre a amamentação prolongada, leia aqui.

O educador também mostrou possuir dons de vidência quando disse que sabe que as mães querem desmamar seus filhos. Não foi o que notamos ao vê-las incomodadas e uma delas chorando depois de sua abordagem desastrosa #fail

Vimos o efeito disso naquele pequeno confinamento. Não sabemos como foi para outras tantas mães que amamentam alegremente seus filhos e assistiram a aquele show de horrores. Perigoso, absurdo, um desserviço. Enquanto lutamos para conscientizar a sociedade sobre os benefícios da amamentação (inclusive prolongada), vem um educador em rede nacional para destruir tudo. Um crime, convenhamos.

Fico pensando se é esta a imagem que os patrocinadores querem vincular às suas marcas: tamanho desacordo com as orientações em saúde pública.

Não assisti, mas fiquei sabendo sobre uma nutricionista que participou deste reality indicando o consumo de açúcar refinado por estes bebês. Oi? Alguém ai leu a Cartilha do Ministério da Saúde sobre alimentação saudável para os primeiros anos de vida? Falta de critério total da produção do programinha, hein?

Mas quero abordar aqui um outro assunto, tão importante quanto a amamentação: a infantilização das MÃES. Aliás, o que esperar de um programa onde o um fantoche de papagaio dá dicas “incríveis” para as mulheres, né?

Aquelas mães foram obrigadas a ouvir as orientações a respeito de uma situação íntima e pessoal de um homem que não é, sequer, um especialista em aleitamento materno. Aliás, duvido que elas tenham manifestado a menor vontade de desmamarem seus filhos antes desse episódio.

Tratadas como alunas em uma sala de aula, como crianças que devem ouvir e obedecer, como pessoas frágeis e sem opção de escolha.

Se você acha isso um absurdo, saiba que é exatamente o que acontece na maioria dos casos quando, por exemplo, uma mãe entra na sala do pediatra e ouve:
>> mãezinha, você tem que
desmamar seu filho
deixá-lo dormindo no berço sozinho
dar a ele todas as vacinas
dar uma vitamina porque ele está meio abaixo da média da curva de crescimento
entrar com complemento porque seu leite é fraco

Ou quando a gestante entra no consultório obstétrico e ouve:
>> mãezinha, você tem que
cuidar do enxoval que do parto cuido eu
vamos falar do parto só no final da gravidez
puxa, como você tem a bacia estreita
você não quer que seu bebê entre em sofrimento, né?
você sabe que o parto normal acaba com sua área de lazer?

Mãezinha não, nunca, jamais! Somos mães dos nossos filhos e qualquer outra pessoa deve nos chamar por nossos nomes, respeitando nossa individualidade.

Chega de infantilizar as mulheres na tentativa de que elas tenham apenas atitudes passivas.

O papel de qualquer profissional é compartilhar informação de qualidade, baseada em evidências. Chega de achismos, chega de privilegiar a conveniência do profissional em detrimento dos direitos de suas pacientes.

Cabe a nós, tomarmos as decisões, não aos profissionais. E a nossa maior arma contra esse tipo de abuso é a informação!

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2 respostas para “O louro, o educador e os peitos”

  1. 🙂 Adorei!! É isso mesmo, aquilo é um show de horrores. A rede globo com a força que tem deveria focar em assuntos que tivessem base no que diz a OMS e não nos disque me diz de alguns pseudo especialistas.

  2. eloah disse:

    Triste mesmo é pensar que um homem com essas teses pode se denominar educador. Educar que não sabe que cada criança tem seu tempo e deve ser respeitada d maneira que é, para mim, está longe do posto que ocupa. Acho que ele deveria sair da teoria e viver um pouco mais a prática, pois essa está faltando em seus conselhos.

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