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01/4 2013

Primeiro de Abril, parto pelo convênio e Ministério da Saúde

Por Alessandra | Sem Comentários

Dar atendimento para a gestante somente em caso de cesárea é uma forma de violência obstétrica

Dar atendimento para a gestante somente em caso de cesárea é uma forma de violência obstétrica

 

Grávida de 39 semanas, Sara entrou em trabalho de parto. Sua doula foi encontra-la em casa e lá as duas ficaram junto com o marido, entre massagens, caminhadas e banhos quentes. As contrações ficaram mais intensas e o intervalo entre elas havia diminuído. Conversaram com a obstetra que a acompanhava e decidiram que era a hora de ir para a maternidade.

O local já havia sido escolhido há meses. Uma grande maternidade paulista conhecida por ser uma das poucas que ainda permite a entrada de doulas. Esse era o plano de Sara: ter um parto respeitoso, natural e sem intervenções desnecessárias. Sara leu, informou-se e buscou apoio em uma equipe humanizada.

O grande dia havia chegado. Seu bebê mostrou que estava pronto para nascer e o trabalho de parto progredia tranquilamente. Tudo estava caminhando conforme havia sonhado, até chegar na maternidade:

– Senhora, seu plano de saúde não cobre parto normal. Não cobre parto sem avisar, assim de uma hora para outra. Terá que pagar particular.
– Como assim? Meu convênio cobre todas as custas de atendimento obstétrico, inclusive o parto.
– A senhora está enganada. Só cobre cesárea porque tem agendamento prévio. Parto normal assim, na hora que o bebê escolhe nascer não tem cobertura. É muita folga dele achar que pode nascer quando quiser.

– Mas é parto. E parto de verdade não tem hora para acontecer. Que absurdo é esse?

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Sim, hoje é 1º de Abril, mas o texto acima não é nenhuma piada. Os personagens são fictícios, mas representam uma realidade que vem acontecendo há algum tempo. Planos de saúde se recusando a prestar atendimento em casos de parto normal. Foi o que denunciou ontem a Folha de S.Paulo nesta reportagem. Muitas gestantes que haviam buscado atendimento do parto por alguns convênios não tiveram cobertura por não terem agendado o procedimento. Mas como é que se agenda um parto normal? E esse não deveria ser o modelo mais normal a acontecer?

No país campeão da cesárea o plano de saúde se acha no direito de exigir que suas clientes tenham seus partos através da cirurgia. Um grande absurdo. Trata-se de mais um exemplo de violência obstétrica.

Para driblar esse problema burocrático, algumas mulheres com a ajuda de seus médicos, solicitam agendamento prévio para realização de cesárea para uma data posterior à sua DPP. Então, ao entrarem em trabalho de parto, apresentam a tal liberação do convênio e são atendidas normalmente.

O fato é que esses planos estão deixando de prestar o serviço para o qual foram contratados e precisam sim ser obrigados a cobrir qualquer tipo de parto. Ao invés de dar jeitinho, exija seus direitos. Confira neste ótimo texto do Mamíferas de que forma você pode agir para que seu plano de saúde cumpra com o que está previsto no caso de atendimento em obstetrícia.

Seria cômico se não fosse extremamente trágico. Seria apenas mais uma piada de 1º de Abril se não refletisse o péssimo cenário obstétrico que temos hoje no Brasil. “Mãezinha, tem que agendar cesárea para que você tenha seu parto coberto pelo convênio.” É crime, é violência obstétrica. Mais uma das terríveis e falsas indicações de cesárea: cordão enrolado no pescoço, bacia pequena, bebê grande e plano de saúde que não cobre parto normal, claro!

A matéria da Folha de S.Paulo foi ao ar no mesmo dia em que a Veja publicou uma outra em que fala sobre a meta do Ministério da Saúde em reduzir em, pelo menos, 10% o número de cirurgias cesarianas na rede pública e conveniada ao SUS. Lá o índice de cesáreas é de 40% enquanto o máximo aceito pela Organização Mundial da Saúde é de 15%.

E na nossa rede particular os números beiram os 90%. Sim, um absurdo! E quem é que vai fazer uma ação para que este número seja diminuído? Quem é que vai punir essas práticas abusivas dos planos de saúde? Quem é que vai punir as falsas indicações de cesáreas dos médicos de convênio? Quem é que vai reformular o que vem sendo ensinado nas universidades com relação à obstetrícia?

O que sei é que nós, como o lado agredido por todas essas práticas, precisamos buscar informação de qualidade, exigir nossos direitos e denunciar tais crimes. É um trabalho de formiguinha, mas precisa começar por nós.

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Escolhi ser Mãe | 2013
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