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09/5 2014

Quando não voltei de licença-maternidade

Por Alessandra | 2 Comentários

Troquei a varanda gourmet pela varanda da vida

Troquei a varanda gourmet pela varanda da vida

Ouço seus passos caminhando pelo corredor e já me preparo para recebê-la. Ela aparece descabelada, olhos entreabertos, levemente cambaleante de sono e vem direto para o meu abraço. Eu a coloco no colo, meus braços a envolvem por completo e ela recosta sua cabeça sobre meu peito. No silêncio das palavras, ouço seu coração bater junto ao meu e mais uma vez agradeço a Deus por ter a oportunidade de viver esse lindo momento todos os dias ao lado da minha pequena.

É assim que costumam começar os meus dias. Acordo cedo para trabalhar em meu home office enquanto Gabriela ainda dorme. Tomo café entre o teclado e o mouse, pois prefiro adiantar ao máximo o que tenho que fazer antes que ela acorde. Quando ela desperta, quero ter um tempo só para ela. Depois daquele abraço lá em cima, a gente canta, brinca, olha pela janela para ver como está o dia, e ela toma o seu café da manhã. Entre brincadeiras, arrumo as coisas da casa, faço comida e a preparo para ir para a escola. E é só pela tarde que tenho mais tempo para trabalhar de fato. Corre, escreve, entrevista, edita, lê, lê, lê, lê… Estou fazendo mestrado e essa parte do “ler” tem sido intensa. Lava roupa, corre, mercado, corre, jantar, corre, louça… No fim da tarde pego minha pequena na escola, a ajudo com a lição, brincamos, lemos, jantar, banho.

Não há glamour, minhas unhas não estão feitas e por vezes me pego descabelada. Sim, no meio disso tudo, tem dias em que surto, outros em que as costas doem e aqueles em que eu nem acredito que tanto cansaço cabe em uma pessoa só. Não são apenas flores, arco-íris e diversão como pode parecer no começo do texto. É, por vezes, tenso, intenso, enlouquecedor. Mas é um caminho, o caminho que escolhi, o que não significa que seja o melhor para todas as mães.

Quando eu estava grávida de Gabi eu trabalhava na empresa que eu havia sonhado e desejado trabalhar. Chegava cedo para ir na academia, tomar café da manhã com ovos mexidos e suco de laranja fresquinho. No horário do almoço conseguia ir à manicure e no final da tarde fazia uma transformadora massagem. Isso sem contar o bate-papo gostoso com os amigos no meio da tarde. E tudo isso dentro da empresa… Ah, eu achava que nunca ia querer sair dali.

Quando Gabi nasceu me vi tão sugada pela maternidade que, no primeiro mês, comecei a desejar meu rápido retorno ao trabalho. Eu sentia necessidade de ter minha vida de volta, respirar sozinha e cuidar de mim. Eu precisava voltar a ser quem eu era, precisava retomar projetos, precisava… Então, eu precisava entender o puerpério, esse momento pós-parto é intenso demais. São tantos sentimentos aflorados e uma mudança tão radical em nossas vidas que parece ser mais seguro voltar para o ponto onde tudo ainda era mais controlável.

Mas o primeiro mês se foi e eu consegui compreender que aquela mãe ainda era eu. Aos poucos me via transformada e pude sentir que aquele era o momento mais especial da minha vida. O fim da licençamaternidade se aproximava e me vi pesquisando escolinhas para Gabriela com lágrimas nos olhos. Já não me parecia atraente a ideia de retomar minha antiga vida adaptando Gabi a ela. Já não me parecia normal deixá-la tantas horas ao cuidado de outras pessoas para “garantir um futuro” que a mim me parecia sem presente se eu não estivesse ao seu lado. Esses sentimentos vieram como uma avalanche e trouxeram uma certeza em meu coração: eu não poderia retornar ao trabalho.

Meu marido foi quem mais me ajudou a tomar essa decisão. Ele me entendia, ele sempre me entende. Mas não foi fácil, eu deixaria de lado um sonho. E também não foi fácil por ter que lidar com opiniões diversas. Havia pessoas que temiam pelo meu futuro e não consideravam certo eu largar um emprego bacana, havia também aquelas que acham que quem não produz nos moldes do sistema capitalista em que estamos inseridos é vagabundo.

Deixei de lado o emprego dos meus sonhos (na época, vale lembrar), uma vida com mais glamour, o tempo na manicure e as massagens, deixei de lado uma promoção. Troquei a possibilidade de ter uma varanda gourmet (esse era meu sonho de consumo lá atrás) de um apartamento bacanudo para desfrutar da varanda da vida.

Aos poucos voltei a trabalhar de casa. Em, geral, era nas madrugadas que eu conseguia escrever. Os dias eram intensos com Gabi e, muitas vezes, eu me via cansada e descabelada. Mas eu não poderia me sentir mais feliz. Eu não conseguia conceber outro caminho, eu precisava viver a maternidade em sua totalidade. Com os meses vieram as sugestões para colocar Gabi na escola para que eu tivesse mais tempo para trabalhar. Mas depois de ler sobre o assunto e olhar sobre as reais necessidades de uma criança, decidi que isso só aconteceria após os 3 anos.

Já faz mais de 4 anos que decidi não voltar e não houve um só dia em que eu me arrependesse. O dinheiro é mais curto, a vida é mais corrida e eu sou mais feliz. Eu me reinventei para ser mãe.

Mas esse é o meu caminho. Não significa que seja o melhor para todos. Existem muitas mães que têm um grande desejo de continuar a trabalhar fora e conseguem dar a seus filhos atenção e carinho redobrados quando estão por perto. E também existem aquelas que não têm opção. Precisam voltar a trabalhar para sustentar sua casa de fato. Outras passam por isso de forma ainda mais privativa, já que não têm licença-maternidade e têm que voltar tão cedo para o trabalho que chegam a desmamar seus bebês já nos primeiros meses.

Bom seria se todas as mulheres tivessem o direito e condições de escolher o melhor caminho para si. Escolhas conscientes e respaldadas por uma rede de apoio.

Mas, o mais importante disso tudo é entender que a maternidade é feita de escolhas (como tudo na vida… rs). Sempre vamos abrir mão de algo para ter outra coisa. A questão é termos consciência de abrir mão daquilo que será menos importante para você. E essa decisão a gente toma o tempo todo. Não é porque escolhemos um determinado caminho que não podemos repensar a escolha e optar por outro. Errar, repensar e compreender fazem parte do aprendizado e da nossa construção como mães. Por isso acho a culpa fundamental – e perigosíssima aquela infeliz campanha “culpa não”. Sabe por quê? Se estamos incomodadas com algum sentimento de culpa podemos parar e repensar a situação para saber o motivo desse sentimento de culpa. Aí avaliamos se ela tem de fato fundamento e se algo precisa ser revisto, ou se não, e esse é o melhor caminho que podemos percorrer no momento e, então, deixar esse sentimento de lado. Não somos perfeitas e podemos reconhecer isso. Faço isso o tempo todo e essa reavaliação me ajuda a entender minhas decisões e melhorar aquilo que é possível.

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2 respostas para “Quando não voltei de licença-maternidade”

  1. Sonia Feitosa disse:

    Parabéns Lele pelo lindo texto e principalmente pela maravilhosa mãe que vc é.

    te amo. bjs

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