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18/7 2014

Relato de parto – Alessandra – parte 3

Por Alessandra | Sem Comentários

Relato de parto – nascimento da Gabriela
Mãe Alessandra – Pai Rodrigo
Parto Natural Hospitalar

PARTE 3 – O PARTO

Depois de semanas de pródromos, com contrações diárias e 4 centímetros de dilatação, às vésperas de completarmos 42 semanas, voltamos na Dra Andrea. Ela nos tranquilizou e nos deixou muito à vontade. Poderíamos esperar mais alguns dias (os sinais vitais da Gabi estavam perfeitos, líquido amniótico ótimo, placenta nota 10) ou então irmos para a maternidade e começar a tomar uma quantidade mínima de ocitocina para o trabalho de parto engrenar. Eu queria esperar, mas foi então que o Rodrigo desabafou. Ele queria continuar a me acompanhar nas minhas escolhas, mas estava angustiado e disse que não aguentava mais esperar. Ele sempre ouviu que foi salvo pelo médico em uma cesariana porque ele não nascia nunca e creio que isso, de alguma forma, continuava a assustá-lo. Então fizemos um acordo, se eu não entrasse em TP até sexta-feira iríamos para a maternidade. Era quarta-feira e achei razoável.

Sexta-feira, 28 de agosto de 2009. O TP ativo não havia começado. O dia amanheceu ensolarado e feliz. Eu sabia que em poucas horas iria conhecer o rosto daquela que iria mudar a minha vida, revolucionar minha história. A Camila, nossa doula, veio nos encontrar em casa e juntos fomos para a maternidade.

Não, eu não estava em trabalho de parto ativo, mas as contrações eram fortes (como há muitos dias) e os funcionários já ficaram de olho em mim. Enquanto o Rô abria a ficha, eu e a Camila fomos para a sala de triagem. Eu tinha uma cartinha da Dra Andrea e a enfermeira logo a reconheceu pelo nome: “É aquela médica que faz parto natural, sem anestesia, né?” O exame de toque confirmou 6 centímetros de dilatação. Comemorei com a Camila, já havia passado da metade do caminho!!!

Entrei naquela sala de parto natural e me senti abençoada. Eu havia sonhado em parir ali, e lá estava eu no meu grande dia. A Dra Andrea logo chegou e veio me ver. Ela estava tão tranquila e em paz – como sempre é – que fiquei ainda mais serena.

Caminhei pelo quarto para ajudar as contrações a engrenarem, queria fazer de tudo para não ter que tomar nem um pouco de ocitocina. O Rô fotografava e filmava tudo. A médica iniciou a administração do hormônio ocitocina e garantiu que era a dose mínima e que, assim que as contrações se tornassem ritmadas, fecharia o acesso.

Ela me orientou a comer o almoço que a maternidade havia providenciado para ter energia durante o TP. Olhei para a porta e vi minha irmã, Adriana, entrar. Fiquei feliz, queria muito tê-la ao meu lado naquele momento. Nessa hora também estava no quarto a obstetriz que nos auxiliaria no parto, uma querida, diga-se de passagem.

Enquanto minha doula saiu para comer alguma coisa, fui examinada pela Andrea. Ela me deu a opção de estourar a bolsa para vermos como estava o líquido já que eu estava com 42 semanas. Eu ainda não sentia contrações muito dolorosas e aceitei. Mas fiquei preocupada com a cara que ela e a auxiliar fizeram. Praticamente não havia líquido. Fui tranquilizada novamente quando me disseram que a bolsa poderia ter estourado no banho, sem eu perceber, ou o líquido poderia ter começado a sair aos poucos nos últimos dias. Mas o que saiu de líquido era claro e limpo. Estava tudo muito bem.

A partir daí comecei a sentir contrações ritmadas e agora mais doloridas. Minha doula voltou e me aconselhou a ir para a bola debaixo do chuveiro. Fiquei lá rebolando sobre a bola, com uma toquinha ridícula no cabelo para não molhar demais e eu não sentir frio. A água quente nas minhas costas ajudou muito a lidar a com a dor.

Mas em algum momento a dor se intensificou e falei para a Camila que estava ficando difícil suportar. Ligaram, então, a água da banheira para eu entrar. Lembro de, ao atravessar o banheiro, ver a minha médica escrevendo bastante calma no computador dela, o Rodrigo super relaxado teclando no dele e eu ali sentindo aquelas fortes contrações, foi bem estranho. Parecia que eles estavam em um mundo paralelo.

Deitei na banheira quentinha e encontrei o meu lugar. Lá recebia massagem da doula e podia olhar tudo a minha volta. Minha irmã estava lá, conversando comigo entre as contrações. Elas, aliás, estavam cada vez mais fortes e com intervalos menores. Eu não controlava esses tempos, mas sabia que o trabalho de parto estava avançando. Fiquei de joelhos e rebolei durante as contrações. Nos intervalos voltava a deitar e relaxar. Meu marido tentou fazer massagem nos meus ombros, mas aquilo mais incomodava do que ajudava. Coitado, só queria ser útil. Eu não o deixava fazer massagem, mas também não o deixava sair de perto de mim.

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Mudei de lado na banheira, a essa altura as contrações estavam fortíssimas. Lembro de um exame de toque e 7 centímetros de dilatação. Não gostei de ouvir aquilo, tinha avançado apenas 1 cm desde minha chegada à maternidade. A dor que senti durante o toque também foi horrível. Aninhei-me de tal forma que não queria sair daquela posição para nada. Éramos eu, Gabi e o ninho.

Apenas balançava meu quadril para um lado e para o outro durante as contrações. Segurava a mão da Camila e não a deixava sair de lá para nada. Ela me passava uma segurança muito grande, segurar em sua mão era como se eu tivesse uma força extra para passar por tudo aquilo. Ela falava baixinho coisas que me ajudavam a lembrar porque eu estava ali e o que eu deveria fazer. Inspiração para mais tarde eu desejar ser doula e também auxiliar outras mulheres com amor.

Nossos CDs de músicas que preparei para o parto tocaram durante todo o TP e também me ajudavam a tentar relaxar. Senti enjoo e me arrependi de ter almoçado. Era como se toda aquela comida estivesse me atrapalhando. Continuei ali, deitada, rebolando e apertando a mão da minha doula.

Já era de tarde, não tenho ideia da hora, mas as contrações se tornaram insuportáveis. Para mim não havia intervalo entre elas. Disse isso para a Andrea e ela falou que era impressão minha. Fiquei brava, como é que eu poderia não saber do que estava falando. Eu estava sentindo, eu sabia o que estava falando. Falei para a Camila que queria descansar entre as contrações e não conseguia porque era uma atrás da outra, estava me sentindo fraca. Uma contração acabava, eu achava que ia relaxar e já vinha outra. Eu fazia biquinho e dizia que não queria sentir assim, tão rápido outra. Brincavam comigo, falavam do meu biquinho, eu não entendia a graça. Pedi para a médica fechar a ocitocina e ela disse que já havia feito isso quando o TP começou a engrenar.

Ofereceram-me chocolate e suco de uva que eu havia reservado para o parto. Eu estava enjoada e não queria nada daquilo. Não precisava de energia, precisava de fé. Fé para acreditar que conseguiria passar por tudo aquilo porque, naquele momento, parecia que eu não teria força suficiente. Tomei água de canudinho, pois não conseguia levantar meu pescoço da banheira. Estava encaixada lá e não conseguia me mexer. Assim como Gabi estava encaixada para nascer, também fiquei encaixada para o meu renascimento.

O Rô tentou fazer massagem nos meus pés. Mas eu não quis, tinha uma aflição, sei lá, não queria que ele me tocasse naquele momento. Tive dó dele, mas não conseguia falar direito, só pedia desculpas. Ele ficou lá na beirada da banheira me olhando, eu podia sentir o seu amor e isso me dava tanta força. Minha irmã também estava por lá e isso foi tão important para mim. Quando me perguntavam algo durante a contração eu ignorava, não tinha condições sequer de entender a pergunta.

Aquela sensação ficou intensa demais, contração atrás de contração. Lembrei-me de abrir a boca durante elas e fazia um “aaaaaaaa” bem alto. Fiquei com medo de me escutarem nos corredores. Depois desencanei e verbalizei a dor sem pudores. Era o meu parto. Era um “aaaaaa” com certa sinfonia. Achei engraçado. Como assim engraçado? Devia estar pirando. Como poderia achar graça no meio daquela dor?

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A Camila me perguntou minha data de nascimento. “O que???? Como assim? Pergunta para o Rodrigo”, eu disse. Ela falou que só queria ter certeza de que eu estava na partolândia. Achei graça disso também e percebi que estava na fase de transição, precisava dilatar os últimos centímetros. Comemorei a partolândia. Fiquei feliz por entender o que estava acontecendo comigo. Naquele mar de sentimentos intensos pude me localizar. Mas aí percebi que as contrações não estavam mais tão próximas uma da outra, apesar da dor ainda forte. Doía demais minha lombar e tinha certeza de que minha pelve ia rachar ao meio. Aquilo, sim, era insuportável. Eu e o Rô começamos a orar em línguas. Orávamos alto. Talvez algumas pessoas não entendessem aquilo, mas estávamos chamando a presença do nosso Deus. Ele orou comigo e me ungiu com óleo santo. Foi o nosso momento, o nosso sagrado.

Em um momento de loucura, chamei o Rodrigo e pedi para que ele ignorasse o plano de parto (no plano de parto eu havia escrito que sabia que em algum momento poderia pedir anestesia, mas que não queria que me dessem) e chamasse o anestesista. Ele e a Camila me falaram dos riscos de tomar anestesia, sobre as chances do TP parar, de não ser legal para a Gabi. Mas eu estava enlouquecida e pedi para ele chamar e pronto, ele saiu para falar com a Dra. Andrea. Naquele momento me lembrei dos relatos de parto, quando as mulheres escreviam que pensavam: “Que ideia louca foi a minha de ter um parto natural, pára tudo agora”. Por um instante esqueci meu sonho, desejei a anestesia, ou até mesmo a cesárea. A Dra. Andrea veio me dizer que já havia chamado o anestesista da sua equipe. Perguntei desesperada quando tempo ele levaria para chegar. Ela respondeu que seria 1 hora. Sai do prumo, disse que não aguentaria, precisavam chamar o anestesista do próprio hospital. Gritei que não daria tempo de esperar pelo outro. Ela sorriu (seu sorriso sempre tranquilizador) e perguntou: “Não vai dar tempo de quê, de ter o bebê? Mas isso não é um problema. Estamos aqui para isso.”

Do que eu tinha medo? De morrer de dor? Recobrei a consciência e lembrei que não queria ser anestesiada. Chamei o Rodrigo e perguntei: “Se caso o anestesista chegar e eu não quiser tomar mais anestesia, posso me recusar, né?” Não, eu não queria a anestesia, mas tinha medo não sei de quê… do desconhecido, com certeza. Naquela loucura de pensamentos cheguei a calcular o quanto a mais iria me custar um anestesista. Sim, louca de pedra. Mas eles haviam seguido meu plano de parto e não chamaram ninguém.

Comecei a sentir vontade de fazer força. Perguntei se poderia. A obstetra disse que sim, que deveria fazer o que meu corpo pedisse. Mais um exame de toque e 9 centímetros, como assim? Cadê os 10 que preciso? – pensei.

Durante as contrações eu fazia força e isso me data um alívio muito grande. Cheguei a fazer umas bolinhas de cocô na água. Sim, mulheres podem fazer cocô durante o parto. Sem nojinhos, amore. Fiquei com vergonha, mas falaram que era normal. Minha irmã ia com uma peneira recolhendo tudo. Senti uma sensação muito boa por seguir meus instintos, por saber a hora de fazer força, por sentir meu corpo trabalhando. Falaram que eu precisava sair um pouco da banheira para trocar a água, que já estava fria. Eu não quis me mexer. Então a água foi sendo trocada aos poucos, comigo lá dentro mesmo.

Mais um exame de toque, 10 centímetros, foi doloroso, mas foi ótimo saber que já havia dilatação total. Senti a cabeça da Gabriela começar a passar pela pelve, foi um incômodo estranho e na minha mente veio um questionamento sem sentido: “E se ela não conseguir descer? E se ficar presa na minha pelve? E se ela arrebentar minha bacia?” Tive medo. Era um medo do desconhecido de não saber o que estava por vir. Mas eu precisava fazer força, era mais forte do que eu, meu corpo me dizia aquilo. Continuei a empurrar. Último exame de toque. A obstetriz me disse: “Ela está aqui e é cabeluda! Você não quer se tocar para senti-la?”

Coloquei o dedo dentro da vagina e senti a cabecinha dela, macia e com cabelos. Meu Deus, o que foi aquele sentimento? Comecei a chorar de emoção, eu ria de alegria. Que felicidade era poder tocar na minha princesa. Minha filha. Minha promessa.

Aquele contato com ela me deu um poder que eu não consigo explicar, mas consegui mandar todos os medos embora. Eu sabia que nós conseguiríamos passar por isso juntas e todas as minhas forças foram restauradas.

As contrações eram bastante espaçadas, mas quando vinham, eu fazia força. Lembro que nos intervalos era uma grande calmaria. Todos ao redor da banheira, a música tocando ao fundo, louvores ao meu Deus. A hora estava chegando. Em algum momento disseram que iriam chamar o pediatra. A luz estava baixa, o clima era ótimo. Agora eu me sentia segura e tranquila.

Mais algumas forças e a cabecinha dela começou a aparecer. A Andrea me lembrou que ela iria dar dois passinhos para frente e um para trás, até sair totalmente. Pude vê-la através do espelho que colocaram na minha frente e mais uma vez toquei sua cabeça. Quanto amor pude sentir! Não sei quantas forças foram necessárias, quanto tempo durou o expulsivo, mais lembro de sua cabeça sair e, uma força depois, seu corpinho. Imediatamente a dor cessou. Ela veio para o meu colo. Eu disse que ela era muito bem vinda. Que era amada.

O Rô estava ao nosso lado. Orou e cortou o cordão umbilical. A pediatra humanizada olhava e aguardava o nosso tempo. Sem intervenções. Mas Gabi precisou ser examinada e recebeu um pouquinho de oxigênio. O Rô a acompanhou em todo o tempo e logo a trouxe para mim.

Antes ainda a médica me examinou e esperou a placenta que logo saiu. Não tive laceração que precisasse de pontos.

Lá mesmo, ainda na sala de parto, eu a olhei e ela olhou para mim… e senti uma das sensações mais estranhas de toda a minha vida. Era como se eu conhecesse aquele olhar, inexplicável… e nós duas nos apaixonamos. Tentei amamentá-la, mas ela apenas cheirava e lambia meus seios. Gabi nasceu às 17h30. Foram cerca de 5 horas de TP ativo.

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Eu não me sentia cansada, sentia uma força absurda, uma energia sem fim. Eu queria rir, queria olhá-la, queria amar… Era muito amor em mim… Sentia que eu podia fazer qualquer coisa na vida! Sentia-me viva. Renasci naquele parto. Eu pari por mim, por minhas avós, por minha mãe, por minha sogra, por minha irmã… e como eu queria dizer para todas as mulheres que elas também eram capazes e não deveriam ser roubadas desse privilégio. Começou aí um novo tempo em minha vida…

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Escolhi ser Mãe | 2013
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